BATMANIA

AS TIRAS DE BATMAN E ROBIN

Batman apareceu nos jornais em cinco fases diferentes, desde seu surgimento em 1939, nas revistas em quadrinhos. A primeira fase foi provavelmente a mais importante, e foram publicadas no Brasil em séries como a Coleção Invictus da editora Nova Sampa nos anos 90. Foi a última grande obra que Bob Kane desenhou a lápis completamente sozinho.

É o primeiro trabalho de Charles Paris à tinta para Batman, representando os primeiros três anos de um total de vinte e dois anos com o personagem. Paris é possivelmente, a única pessoa a fazer esse trabalho em Batman, durante tanto tempo.

A CRIAÇÃO

A maioria das tiras eram produzidas nos jornais e distribuídas por "syndicates" de jornais (agencias distribuidoras). Normalmente, o artista encaminhava o trabalho acabado a um editor do syndicate. Entretanto, Batman e Robin foi administrada através dos escritores da DC, via seu editor Jack Schiff. Depois a tira recebia as letras (quase sempre Ira Schnapp) e então ia para o artista (geralmente Charles Paris) que cobria os trabalhos com tinta. Depois de receber tinta e de ser aplicado o revelador Craftint, a arte voltava novamente à mesa de Schiff. Então, Schiff liberava a tira para McClure Newspaper Syndicate que fazia os clichês.

Exceto pelas primeiras seis tiras introdutórias, todas as tiras diárias foram desenhadas sobre cartolina Craftint para ilustração. Fabricada pela The Craftint Manufacturing Co. em Cleveland, Ohio, a cartolina tinha uma padrão de pontos, formando uma reticulaquase invisivel em um dos lados. Quando um liquido revelador era aplicado com um pincel, os pontos se tornavam quase-preto. Isto permitia ao artista sombrear os objetos com áreas cinzas, dando a ilusão de cor, como opção ao ambiente preto e branco. Como as prnchas dominicais eram coloridas, a Craftint não era usada nas páginas de domingo. A cor dos dominicais era feita por outro empregado da DC, Ray Perry.

Schiff criava um título para cada dia, usualmente à mão, escrevendo sobre a parte de cima e de trás da arte original. Era comum que as tiras dos jornais tivesssem títulos separados todos os dias. Originalmente usados para contratos e cálculos de copyrights, protanto cada tira poderia ser identificada separadamente, no escritório de copyrights. Algumas companhias achavam que identificar as tiras por intermédio de datas era insulficiente; por este método, cada data deveria ter seu próprio título. Bell-McClure (uma fusão ocorrida em 1953) foi o último syndicate a usar títulos, levando a prática até os anos 60, com Mutt & Jeff.

COLECIONANDO ARTE ORIGINAL

As tiras de Batman e Robin, diárias e dominicais, que foram publicadas entre 1943 e 1946, têm confundido os colecionadores através dos anos por várias razões; poucos jornais publicaram a tira, ela frequentemente aparecia incompleta, nenhum jornal parece ter publicado toda a série do começo ao fim. Mesmo que 948 tiras diárias tivessem sido desenhadas, somente uma dúzia e meia de originais parece ter sobrevivido. Estão nas mãos de colecionadores particulares e raramente aparecem à venda. O desenhista Jack Burnley possuia duas dominicais até o começo dos anos 79, quando desapareceram durante uma mudança. Nunca mais reapareceram.

O autor Ron Goulart, que tem colecionado arte original dos quadrinhos desde o final dos anos 30, relembra que era fácil obter originais naquela época. Ele escreveu para Bob Kane por volta de 44 e 45 e recebeu uma tira diária autografada, de uma seqüência do Coringa. Um amigo seu escreveu para Bob Kane aos cuidados da DC, que publicava vários títulos relativos ao Batman, e da mesma forma recebeu um original. Outro fã dos quadrinhos relembra que enviou vários pedidos à DC pelo período de um ano, qté que, finalmente, por volta de 1950, também recebeu uma tira diária original. Três outros originais estão na coleção do artista Lew Sayre Schwartz, que foi "ghost" de Bob Kane de 1947 a 1953. A maioria dos originais foram provavelmente destruidas. Um destino comum para os quadrinhos em tiras ou revistas antes de meados dos anos 60, quando somente então a mídia começou a reconhecer os comics como uma séria forma de arte.

SUPER-HERÓI ESCREVENDO

Al Schwartz começou escrevendo roteiros para histórias em quadrinhos em 1941. Embora sua experiência inicial com trabalho para syndicate de jornais foi com Batman, mais tarde ele se tornou um autor regular para a tira de Superman. Sua primeira história do Superman apareceu em outubro de 1944, com um personagem chamado Aubrey Jones, que era confundido com o superman.

Schartz relembra como eram feitos os roteiros para tiras e gibis ao mesmmo tempo; "os editores queriam que você chegasse e falasse (das histórias) para eles. Algumas vezes, você podia falar por telefone mesmo. Eu chegava com algumas idéias e falava para Jack Schiff antes de ganhas um O.K. . Eu poderia ter uma idéia e Jack outra e falávamos sobre elas juntos. Às vezes, algo totalmente novo surgia desta troca de idéias".

"Agora isto era verdadeiro para todos, não somente para mim." Nós todos trabalhávamos da mesma maneira. Nós nos ajudávamos. Mas ninguém queria crédito somente por ter ajudado numa parte. Desde que Jack era editor, eu tinha que oter sua aprovação antes de ir adiante com quaisquer histórias. Você nunca prosseguia numa história sem o O.K., e ninguém iria tocá-la no seu lugar".

"Era muito fácil ter uma história aprovada por Jack, mais do que por outros editores, porque ele não era comprometido por arbitrariedade ou considerações subjetivas. Com Jack, você podia desenvolver um aregumento com liberdade. E era engraçado trocar idéias com ele. Engraçado ver aqueles homens crescidos andando de um lado para outro: "Superman chega e ele faz... ou Batman... sim, sim, entendi!" Às vezes, todos se envolviam no processo".

"Escrevi um bocado de filmes, incluindo as partes dos personagens e é muito mais fácil que escrever quadrinhos, onde você tem que descrever a cena para o artista desenhar. Também nos filmes, não há restrições aos diálogos, você tem espaço para expressar uma idéia. Quando você está escrevendo uma tira, seu diálogo tem que deixar espaço para o desenho, e também tem que recapitular o que já saiu nas tiras anteriores sem perder o ritmo, e também seguir a linha da história e criar um clima de suspense no fim de três ou quatro quadros. É um veículo muito restrito".

Por outro lado, eu escrevo tiras como cenário de um filmes, e descrevo os personagens como eles devem aparecer. O tipo Peter Lorre do personagem da história "O Ditador Barato de Twin Mills", é um bom exemplo sobre a maneira como desenvolvo uma personalidade: deixado-a usar palavras do seu modo peculiar e exagerando certos maneirismos pessoais e idiossincrasias".

"É difícil lembrar o que tinha em mente, mas devo ter usado algo que fizesse jojo ficar especialmente semelhante a Peter Lorre. Artistas são bons em pesquisar, descobrir coisas, também são ótimos imitando o estilo uns dos outros. Não quero subestimá-los, mas eles não escrevem. Fazem exatamente aquilo que você pede. "Flink" ("díspar") não era nada especial que jojo tinha para dizer. Não peguei aquilo de nenhum lugar em particular. Foi a idéia de pôr algo no seu discurso que se tornasse característico. Numa novela, você pode usar várias coisas para descrever o personagem. Acredito que dotando o personagem de vícios de linguagem, estarei efetivamente delineando o personagem. E, alguns roteiros uso gíria especialmentetirada do Brooklin."

A DC pagava US$ 65,00 por semana de continuidade escrita, era um bocado de dinheiro naquela época."

As páginas dominicais rendiam US$ 35,00 cada e Schwartz escrevia duas ou três continuações por semana, além do seu trabalho normal nas HQS.

SUPER-HERÓI DESENHANDO

Charles Paris trabalhou em Batman e Robin quase desde o começo até o fim, cobrindo à tinta tanto as tiras diárias como as dominicais. Por um período de 22 anos. Paris fez regurlamente seu trabalho para a DC.

Nunca prestei atenção ao Batman, até que eles me pediram para fazer o serviço, relembra Paris, Jerry Robinson e George Roussos estavam escrevendo os gibis, e para mim, aqueles caras eram profisisonais; eles sabiam o que estavam fazendo. Eu era somente um iniciante e me sentia um sortudo por estar ali. De vez em quando, eu dava uma espiada no material em que eles estavam trabalhando e aquilo tudo me surpreendia. E continua a me surpreender até hoje."

"Nunca vi uma tira sequer publicada num jornal daquela época. Acho que vi a dominical que saía no jornal, que eu costumava comprar aos domingos. Só vi uma HQ um única ve, por recomendação de Jack Shiff, para seguir os traços de um personagem que estava para aparecer, ou algo assim. Foi somente por motivo de identificação."

"Jamais considerei-me um cartunista; eu era um pintor." Paris continua. "Quadrinhos eram algo para minha sobrevivência. O pouco que fiz em desenho a lápis, achei interessante, mais interessante do que meu trabalho com tinta, sob o ponto de vista de criatividade. Mas não acho que eu era bom em visualisar e fazer algo interessante do jeito de Dick Sprang. Ele trabalhava seus quadros e fazia-os parecer interessante. George Roussos tinha todo aquele talento porque estudou a matéria.Ele discutia como Hal Foster usava linhas de texto de um quadro a outro, para que seu olho passeasse através da cena. Você não pode fazer isso sempre, mas quando possível ele fazia, e ganhava a continuidade visual do movimento".

"Para George, quadrinhos eram uma fina forma de arte. Ele tinha a maior coleção de arte original, de todos que conheci, incluindo Tarzan e Príncipe Valente de Hal Foster e trabalhos de Noel Sicles também. George tinha um estoque de Scorchy Smith e Johnny Hazard de Frank Robbins, um dos meus artistas favoritos".

"Uma coisa com a qual eu era cuidadoso era o meu material de trabalho. Eu me certificava sempre em ter bom material. Eu ia para uma loja de material de arte e pedia pincéis de aquarela Windsor & Newton nº3, pelo de marta. O vendedor me trazia uma caixa deles. Eu pegava cada um e molhava, depois olhava contra a luz. Se não ficasse no ponto de um fio único, não me servia. Minha vida dependia daquele pincel".

"Quando usava uma pena, era uma pena de fio, a pena de arquiteto. Para desenar prédios, usava penas e régua-T. Era tão mais rápido fazê-los. Para fazer curvas, usava uma série de peças ovais em 20º 40º e 60º, de diferentes tamanhos, mas nos mesmos graus".

"Usava um Windsor & Newton nº3, às vezes um 4, o nº3 foi meu primeiro pincel. Na época da guerra, faltou pêlo de marta e os pincéis não valiam nada. Quem sabe o que eles estavam usando? Provavelmente, uma mistura de pêlo de boi, mas os pincéis simplesmente não tinham vida. Você molhava-os na tinta e ficavam como se fossem pedaços de barbante molhados. Eu frequentava a Delta, um pequeno bazar na University Place, perto da esquina de onde eu morava, em Greenwich Village. Depois da guerra, continuei com a Delta e Windsor & Newton".

Paris ganhava US$ 85,00 por semana para finalizar à tinta seis tiras diárias mais a página dominical. Já Kane, tinha sua compensação de forma diferente: "Eu não pago por página, eu tinha um contrato para fazer as tiras por tanto tempo quanto a distribuição durasse".

INCESSANTES PRAZOS FINAIS

Trabalhar com prazos curtos e por muitas horas, parece ser quase um pré-requisito para o trabalho em HQs. Era certamente um lugar comum, conforme diz Schwartz: "Normalmente, eu estava escrevendo dentro do prazo justo. Jack Schuff dizia: "Olha, estava para fazer isto. Nós precisamos ir mais rápido". E você tinha que produzir dez semanas de tiras antecipadas".

"Eu produzia duas ou três seqüências em série, em uma semana. O material ia fluindo normalmente. Eu lembro que Bil Fingr usava algo muito especial para lhe dar energia: canja de galinha. Quando ele descobriu que tinha problemas no coração, começou a ficar cuidadoso. Parou com o café e coisas do tipo. Bill era muito cuidadoso consigo mesmo. Não era descuidado como todoas nós éramos".

Prazos finais tinham que ser seguidos por toda a equipe criativa, mas Finger parece ter obtido quase um status legendário, pelo seu pavor pela sentença do ´razo final. "Através dos anos. Bill matou pelo menos três avós, para escapar dos prazos finais", diz Schwartz, relembrando uma história que corria pelos escritórios da DC. "Bill ficava tão enroladom juntando material e pondo peças juntas, que sentar e trabalhar ficava difícil para ele. Ele era muito preocupado com o processo criativo. Acho que Bill somente poderia cumprir seu trabalho dentro do prazo, se tivèssemos computadores naquela época".

"Ele era maravilhoso em inventar: eu inventei tantas histórias com ele. Quando tínhamos problemas, Bill e eu costumávamos chamar um ao outro e nos visitar. Nós trabalhávamos na história, depois trabalhávamos na minha. Lembro que certa vez estávamos criando histórias no Washington square Park. Falávamos em voz alta e de repente, um bando de meninos subiu sobre nós. Falávamos sobre Batman e Superman, eu acho".

Completando a questão do prazo final, pelo ponto de vista do artista, Paris nota que Jack Schiff passou a gostar muito de mim e do meu trabalho mais tarde, mas não foi sempre assim. Pelo menos, ele deve ter percebido que era uma pessoa de confiança e que se houvesse um prazo a ser cumprido, eu faria de tudo para chegar lá, mesmo que isso significasse ficar trabalhando direto três dias e três noites. Portanto sempre dei o melhor de mi. Nem sempre isso me agradava, mas sempre fiz o melhor que pude".

"Quase todos os colegas, e me incluou também, continua Paris, "tínhamos uma coisa em comum: acho que éramos todos, primeiramente, seres solitários. Acho que você tem que ser um solitário para trabalhar daquele jeito. Se você está na sua trabalhando em casa, é fácil se desconcentrar, levantar pra ligar o rádio ou a TV, ou ir apanhar gêlo. Você pode assim, facilmente se esconder do trabalho se não impuser uma rigorosa disciplina. Eles tinham que ser assim disciplinados ou não acompanhariam coisa alguma. Pagar contas é um grande incentivo. Tenho mais admiração e respeito por aqueles caras agora, do que naquela época em que eu estava entre eles. eu era muito mais jovem, tinha mais ambições e tinha outros objetivos em mente. Tinha mais energia também. Não poderia trabalhar até uma ou duas da manhã agora".

FONTE: COLEÇÃO INVICTUS 12