BATMANIA

MULHER-GATO O FILME

Desde que a primeira imagem de Halle Berry trajada de Mulher-Gato surgiu na Internet a quase um ano atrás, os fãs de quadrinhos e até o público "comum" já criaram as piores expectativas em torno da produção. Não há surpresas, o ex-especialista em efeitos visuais e membro do clube dos diretores de um nome só, Pitof, realizou a pior adaptação de uma HQ para o cinema, desde o funesto CAPITÃO AMÉRICA, de 1991.

Halle Berry estrela como a protagonista ridiculamente chamada de Patience Philips, uma dócil artista trabalhando para a gigante Hedare Beauty. Um dia os gatos começam a segui-la e, quando ela por acidente ouve parte de uma informação que trata de um problema comprometedor com um novo produto da empresa, acaba sendo perseguida por alguns chacais que a assassinam. Os gatos a revivem e agora ela possui todas as habilidades de um felino, além de dons inexplicáveis como pilotar motocicletas e jogar basquete. Bem, será que os gatos que a ressuscitaram eram do circo? Juntando-se à brincadeira está Benjamin Bratt como o policial boa pinta que conhece Patiente somente após sua transformação. Numa cidade grande como Nova York, parece que o cara sempre dá a sorte de se deparar com todo e qualquer incidente envolvendo a Mulher-Gato. Sharon Stone, capaz de matar e morrer pela Hedare, é também esposa do presidente da empresa. A informação de que Stone é a vilã é alarmante, se considerarmos todas as asneiras que já enfrentamos até agora.

Como mencionado antes, todos sabiam que não se deveria esperar muito desde quando as primeiras imagens de Halle no uniforme foram divulgadas. Ao que se sabe, a própria Halle esteve envolvida na criação da fantasia (ou uniforme?). Alguns fãs da atriz alegaram que Berry foi insultada, mas há quem acredite que foram eles quem insultaram o público. Mas não era para a produção desanimar "só" por isso. Convenhamos, o uniforme sozinho não destruiria o filme, e eles parecem terem se assegurado disso, mesmo.

MULHER-GATO é dirigido com completa e total ineptidão por Pitof, que no passado criou visuais tão interessantes como os dos filmes ALIEN: A RESSURREIÇÃO e JOANA D'ARC DE LUC BESSON. A estória de MULHER-GATO beira o sem sentido. Espera-se que a descrença em filmes inspirados em HQs seja de uma vez por todas erradicada, mas divertir-se assistindo MULHER-GATO requer total desapego à massa cefálica humana. Algumas sequências são tão ruins, tão tolas, que torna-se simplesmente impossível acreditarmos que alguém de fato escreveu aquilo e que, pior, alguém leu aquilo e disse, "Nossa, vamos usar isso!". No futuro, talvez devessem proibir diretores de usarem apenas um nome, até que provem sua competência com pelo menos um bom filme.

Logo após Patiente ganhar suas habilidades, ela tem um encontro com Tom Lone (o policial feito por Bratt e mais um estupendo nome de personagem na lista). Quando passa por uma quadra de basquete, o casal não resiste à tentação de um jogo mano-a-mano. Exatamente o que se faz num primeiro encontro. Agora, os dois se engajam num pseudo-jogo sexual de mano-a-mano na quadra (em frente de criancinhas). Aparentemente, dentre as recém descobertas habilidades de Patiente estão a de saltar paredes, driblar como uma especialista e deixar o pouco talentoso Lone só assistindo ela jogar. Patiente também possui agora a habilidade de pilotar potentes motocicletas. Baseado na passiva personalidade de sua encarnação anterior, é de duvidar-se que ela já tivesse feito algo semelhante antes.

Uma vez que Pitof trabalhava com efeitos visuais, o mínimo que se esperava eram alguns efeitos especiais impressionantes em CGI. Outro erro. Os movimentos de Halle como Mulher-Gato estão todos ruins. Quando sua personagem escala paredes, os movimentos lembram mais os de um inseto, algumas vezes regados a um efeito sonoro não condizente com a situação. Quando ela salta, mais se parece com um sapo do que com uma felina. As trocas da Halle feita por computação gráfica para a Halle real são tão óbvias, que parece que Pitof simplesmente substituiu a atriz pelo videogame MULHER-GATO, ao invés de tentar substituir os movimentos e a aparência de Halle.

Talvez a única coisa que se salve em MULHER-GATO seja o aspecto ridículo de toda a produção. Se você for ver o filme e diminuir suas expectativas, e com isso quero dizer realmente diminuí-las ao extremo, pode ser que acabe se divertindo. Se os realizadores tivessem reconhecido e aceitado o mico que tinham em mãos, eles poderiam ter revertido isso para tornar o resultado mais divertido. Infelizmente, o filme se leva a sério demais na maior parte do tempo. Mas o ridículo ali encontrado é ainda impagável. A cena do basquete acima mencionada é simplesmente tão estranha que deverá provocar alguns risos acidentais no público. Toda vez que Halle sacode-se dentro da fantasia da personagem, uma risada é inevitável. Sharon Stone se incumbe de elevar a bobagem nas cenas em que atua – não dá para saber se é proposital ou não, mas o fato é que ela o faz. A luta final entre Berry e Stone só é legal de se ver porque é absolutamente patética.

Em resumo, o que deu errado em MULHER-GATO? Tudo. Os mexericos sobre este projeto começaram há mais de uma década, quando Michelle Pfeiffer trouxe sua sensualidade, brilho e perversão na Mulher-Gato como mostrada no longametragem BATMAN O RETORNO. No início, Pfeiffer estrelaria o filme derivado, depois era Ashley Judd. Ambas as atrizes podem agora oficialmente dar seus suspiros de alívio, quando virem esta bobagem nos cinemas. Pfeiffer é a Mulher-Gato e a atuação de Halle não pode sequer ser associada à atuação de Michelle. Halle até que está bem como a pacata Patiente, mas parece totalmente deslocada na pele da sensual super-heroína felina. Se há algo de bom que se possa tirar de MULHER-GATO, é que provavelmente o filme se tornará a cartilha prática das "coisas que não devem ser feitas ao adaptar-se uma HQ para o cinema".

Estréia original: 23/jul/2004
Estréia no Brasil: 13/ago/2004
Estúdio: Warner Bros. Pictures
Direção: Pitof
Roteiro: John Rogers, John Brancanto e Michael Ferris
Elenco: Halle Berry, Sharon Stone, Benjamin Bratt, Lambert Wilson, Alex Borstein, Michael Massee
Gênero: Ação, Aventura
Contém: Violência e sensualidade
Site oficial: Catwoman.com