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"Mais uma vez, um mestre dos crimes espreita pelas ruas da cidade. Um criminoso que deixa um rastro de morte por onde passa. Suas vítimas transfiguradas com um terrível sorriso de palhaço: o sinal da morte deixado pelo CORINGA!"
Cabelos verdes, pele branca, sorriso vermelho e uma infinita variedade de ternos roxos. Desde que uma certa carta do baralho apareceu no fim do filme "Batman Begins", os fãs têm clamado por detalhes sobre seu vilão mais querido. O Coringa interpretado por Heath Ledger (que foi encontrado morto no dia 22 de janeiro, em seu apartamento na cidade de Nova York) fará seu retorno triunfante às telas de cinema em "O Cavaleiro das Trevas". A próxima aventura em Gotham City, dirigida por Christopher Nolan, tem estréia prevista para julho de 2008.
Muito antes de estrelar em grandes filmes, o Coringa já infernizava a vida de Batman na série mensal de revistas em quadrinhos da DC Comics e na série Detective Comics. Neste artigo, vamos analisar as aparições do Coringa nas histórias em quadrinhos.
O Coringa foi criado durante a Idade de Ouro das histórias em quadrinhos como um palhaço malvado. Sua primeira aparição foi em Batman #1, em 1940. O Coringa original se parecia com o ator Conrad Veidt em seu personagem do filme "O Homem que Ri".
Confundindo tanto Batman quanto o Departamento de Polícia de Gotham, o Coringa fez sua estréia como um habilidoso ladrão e assassino em massa. Anunciava o nome e hora exata da sua próxima vítima através do rádio. O Coringa conseguia tal façanha ao envenenar suas vítimas com um veneno conhecido como o Gás do Riso.
Nessa primeira versão, o Coringa era um assassino calculista que deixava suas vítimas com um sorriso permanente. Embora o Coringa estivesse destinado a morrer em sua segunda aparição, o departamento editorial da DC achou que a personagem tinha potencial. No último minuto, um aviso foi acrescentado à revista, revelando que o Coringa ainda estava vivo. Foi assim que começou a tendência de liquidar o Coringa para, mais tarde, revelar que ele ainda estava vivo.
Um Coringa, muitos nomes
Ao longo de sua trajetória nas revistas em quadrinhos, o Coringa tem sido mencionado como "Príncipe Palhaço do Crime", "Arlequin do Ódio" e "Ás do Crime". Quanto a seu verdadeiro nome, o episódio "A Volta do Silêncio" revela ser Jack, embora sua legitimidade seja questionável. Seu sobrenome é desconhecido.
As origens das histórias do Coringa
"Não sei ao certo o que aconteceu. Às vezes me lembro de algumas coisas, às vezes não me lembro de nada... Se é para ter um passado, prefiro que seja um passado com múltiplas escolhas."
(O Coringa, "A Piada Mortal", 1988)
Conforme a revelação em Detective Comics #168 (1951), o homem que se tornaria o Coringa usava o disfarçe de um criminoso conhecido como Capuz Vermelho. Durante um assalto mal-sucedido a uma fábrica de produtos químicos em Gotham, Capuz Vermelho saltou em um barril de substâncias químicas perigosas para escapar do Batman. Após surgir em um cano de escoamento, ele descobre que sua pele (em inglês) havia sido tingida de branco, seus cabelos haviam se tornado verdes e seus lábios haviam sido transfigurados em um eterno sorriso. O produto químico fez com que ele ficasse louco e se transformasse no Coringa.
A origem do Coringa foi revelada em Detective Comics # 168 e expandida em "A Piada Mortal"
Embora essa versão seja considerada sagrada pela DC Comics, a antiga vida do Coringa está aberta para debates. Assim como as cisrcunstâncias que envolvem o fato de ele ter usado o disfarçe de Capuz Vermelho. A versão mais aceita é encontrada na história de Alan Moore, "Batman, A Piada Mortal". Moore apresenta o Coringa como um ex-engenheiro químico que larga seu emprego para tentar a sorte como comediante. Ao fracassar como comediante e desesperado para sustentar sua esposa que está grávida, ele aceita ajudar dois ladrões a chegarem na Fábrica de Baralhos Monarca, vizinha da fábrica de produtos químicos onde ele trabalhava. Durante o planejamento do roubo, a polícia o informa que sua esposa havia morrido em um acidente doméstico. É possível que ela tenha sido morta por um policial corrupto envolvido no roubo. Embora hesite em continuar o plano de roubo, ele usa um capacete vermelho e ajuda os ladrões a terem acesso à fábrica.
Apesar de "A Piada Mortal" ser a origem mais aceitável do Coringa, o engenheiro desesperado não é a única versão para o surgimento do vilão. Em uma outra história, o jovem Coringa coleciona ossos (em inglês) de animais torturados por ele. Também tem prazer ao ver seu pai maltratando sua mãe. Essa versão revela que o primeiro assassinato cometido pelo Coringa foi o de um garoto da vizinhança que teria descoberto seu "cemitério de animais". Mais tarde, o jovem Coringa teria matado seu próprio pai.
Além das diferentes histórias de como o Coringa teria surgido, há também muita discussão sobre quem deveria ser considerado o pai do Príncipe Palhaço do crime. O escritor Bob Kane, seu colega Jerry Robinson e Bill Finger alegam ter criado o Coringa. Kane diz que ele e Finger teriam criado o Coringa, enquanto Robinson teria contribuído apenas com as cartas do baralho usadas pelo criminoso [fonte: Frank Lovelace (em inglês)]. Robinson, por outro lado, alega que já havia criado o Coringa muito antes de Finger ter lhe mostrado uma foto de Veidt [fonte: Epstein (em inglês)].
¬A seguir, veremos as mudanças sofridas pelo personagem ao longo dos anos.
Acalmando o Palhaço
"Batman! Eu o acuso por interferir no direito dos criminosos de cometerem crimes!"
(Batman #163, "O Juri do Coringa")
Nos EUA, durante a década de 40 e 50, as revistas em quadrinhos com histórias de terror e de crimes estavam entre os mais populares títulos publicados na época. A crença de que tais histórias estariam ajudando a despertar instintos delinqüentes nos jovens fez com que o Dr. Frederick Wertham publicasse o livro "Sedução do inocente: a influência de histórias em quadrinhos na vida dos adolescentes", em 1954. No livro, Wertham mostra ilustrações de cenas violentas ou de conteúdo sexual contidas nas revistas. Ele argumentava que as histórias encorajavam comportamento anti-social e homoerótico na juventude americana.
O público reagiu com desprezo em relação à indústria de revistas. Muitos pais proibiram seus filhos de lerem as histórias. Para permanecer no mercado e reconquistar a confiança do público, a maior editora de revistas em quadrinhos criou um Código de Autoridade de Histórias e começou a regulamentar o conteúdo de suas revistas. As editoras tiveram de parar de publicar as revistas que tratatavm temas como zumbis, monstros e crimes, que eram o carro-chefe de vendas, para dar lugar a revistas menos populares, como as de conteúdo humorístico. Muitas editoras tiveram de fechar suas portas. Se não fosse o sucesso das revistas em quadrinhos com histórias sobre super-heróis, produzidas na década de 60 pela Marvel e pela DC, o gênero poderia ter sido extinguido.
Como resultado da pressão contra tais histórias, e com a criação do Código de Autoridade, o Coringa foi retratado como uma figura de humor durante as décadas de 40 e 50. Sua imagem passou de um perigoso e engenhoso assassino para um lunático e irritante pregador de peças. Ele se tornou um ladrão que planejava roubos elaborados e que geralmente envolviam charadas e disfarces.
Os truques do Coringa incluiam passeios no Coringa-Móvel (Batman #37), disfarçe de gênio (Batman #49), a criação de um cinto de utilidades anti-Batman (Batman #73) e uma ensurdecedora gaita-de-fole (Detective Comics #149)
Apesar de praticar atividades menos letais, o Coringa continuava sendo um dos mais inteligentes inimigos de Batman. O vilão utilizava inúmeros aparatos, como "Fantasias para Crimes", um cinto de utilidades e até mesmo um coringa-móvel, que trazia seu rosto estampado na parte dianteira. Essa versão do vilão durou até a década de 60. Foi então que, Julius Schwartz, que não gostava muito do personagem Coringa, começou a editar as histórias do Batman. Com isso, o Coringa quase caiu no esquecimento.
O Coringa de hoje
"Zip-a-dee-do-da, zip-a-de-ão, mas que magnífica explosão!"
(O Coringa #3, "A Última Risada")
Quando os escritores Denny O'Neil e Neal Adams receberam a missão de atualizar as histórias de Batman em 1973, o Coringa surgiu novamente. Nessa sua mais nova reencarnação, o Coringa retomou seu comportamento assassino. Porém, no lugar do ladrão frio e calculista, o vilão se tornou um maníaco homicida que não hesitava em cometer assassinatos a todo momento.
A nova e mais letal versão do Coringa se comparava ao Batman em termos de inteligência e perspicácia, mas ele não hesitava em utilizar seus truques ocasionalmente, como o Gás do Riso, por exemplo. Ele demonstrava crescente comportamento sociopático, como ao matar seus capangas. Foi nessa época que o Coringa ganhou sua própria série. As histórias sempre envolviam um confronto seu com diversos heróis e acabavem com sua captura e reclusão. Durante a década de 80, seu comportamento maníaco foi levado mais além em diversos episódios. Entre seus crimes podemos citar o espancamento de Robin (Jason Todd), utilizando uma barra de ferro, antes de matá-lo em uma explosão; o sequestro e tortura do Comissário Gordon; e um tiro na coluna vertebral (em inglês) de Bárbara (filha do Comissário Gordon/Bat Girl), o que a deixou paralítica (em inglês).
Na continuação da revista, a encarnação de homicida do personagem permaneceu firme, enquanto o Coringa se envolvia em uma de suas mais ambiciosas missões. Tal missão incluia roubar os poderes de alteração da realidade de Mr. Mxyzptlk, inimigo do Super-Homem a fim de refazer o mundo à sua imagem e envenenar um grande número de super-vilões com seu veneno de insanidade.
O Coringa também conseguiu encontrar uma aliada em Harley Quinn, sua psiquiatra que, desde então, é obcecada pelo vilão. Apesar de ser ambicioso, o Coringa não mede esforços para praticar seu sadismo. Isso fica evidente no assassinato da segunda esposa do Comissário Gordon e no atentado contra Zatanna, mágico e aliado de Batman.
Mais recentemente, o Coringa se declarou imperador (Superman #161), libertou um exército de super-vilões envenenados pelo Joker-Venom ("O Coringa: A Última Risada" #2), foi quase espancado até à morte por Batman (Batman #614), além de fazer jogos psicológicos com o amigo do Super-Homem, Jimmy Olsen (Contagem Regressiva #50)
Mais recentemente, o Coringa foi baleado no rosto por um policial corrupto, disfarçado de Batman. Ele quase morreu, mas foi ressuscitado no Arkham Asylum. Foram necessárias diversas cirurgias plásticas reconstrutivas, o que o deixou com um sorriso permanente que tornava difícil sua fala.
Acreditando ter sido vítima do próprio Batman e tendo sofrido nova desfiguração no rosto, o Coringa retorna com personlidade ainda mais letal e psicótica. Usando sua habilidade de se comunicar em código Morse ao piscar, o Coringa ordena que Harley Quinn, disfarçada de fonoaudióloga, execute cada um de seus antigos capangas. Tendo poupado apenas Harley, o mais novo "Príncipe da Morte" ou "Arlequim do Inferno" agora acreditava que precisava se recuperar para poder competir com Batman.
As últimas risadas
"Consegui! Até que enfim matei o Batman! E o melhor, na frente de um bando de crianças vulneráveis! Agora, tragam o Papai Noel!"
(Batman #655, "Batman & Filho Pt.1")
Os constantes confrontos entre Batman e Coringa levantaram uma série de questões. Por que o Coringa e o Batman não matam um ao outro? E, se o Coringa já matou tanta gente, por que ainda está vivo?
No que diz respeito ao Batman, é contra seus princípios matar seus inimigos. A desculpa do Coringa, por outro lado, é um pouco mais complexa. Em diversas ocasiões, o Coringa deixa Batman escapar e se recusa a matá-lo. Sua desculpa é que seu fim não seria dramático o suficiente para colocar um fim na rivalidade ou que sua morte seria um anticlímax. O Coringa acha que seu destino é derrotar Batman de maneira triunfal, que finalmente prove que sua loucura é superior às habilidades do inimigo. Há também a hipótese de que o Coringa tema que, sem Batman, sua vida fique sem sentido, como evidenciado em Batman#663, quando o Coringa diz: "Eu nunca vou te matar. Qual seria a graça sem meu companheiro de cena?".
Após seu retorno triunfal (Batman #247), o Coringa ganha sua própria série (Joker #1), mata Robin (Batman #249) e retorna do mundo dos mortos para lidar com um impostor (Batman #451).
O Coringa sempre escapa da pena de morte por ser considerado um louco. Na graphic novel "Arkham Asylum", o escritor Grant Morrison propôs que o Coringa sofria de uma espécie de "super-sanidade", com senso perceptivo aguçado e ausência de personalidade, adaptando sua psique conforme a conveniência. Morrison reafirmou suas idéias sobre a sanidade mental do Coringa em Batman #663 e propôs que, cada vez que ele escapava do confinamento, uma nova personalidade surgia, explicando sua mudança de comportamento através dos anos.
Dessa forma, em vez de ser mandado para a prisão ao ser capturado, o Coringa era levado ao hospital psiquiátrico de Gotham City, o Arkham Asylum. Originalmente criado para o tratamento de inimigos de Batman que sofriam de distúrbios mentais, como o Coringa e o Duas-Caras, o Arkham Asylum acabou se tornando o destino da maioria dos vilões. Foi lá também, que o Coringa encontrou sua antiga psiquiatra, Harley Quinn, sua atual companheira na loucura.
FONTE: HowStuffWorks Brasil