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Confissões de Super-Heróis
Titulo Original: Confessions of a Superhero (2007)
Direção: Matthew Ogens
Elenco:
Batman: Maxwell Allen
Superman: Christopher Dennis
Mulher-Maravilha: Jennifer Wenger
Hulk:Joseph McQueen
Descrição:
Documentário, 92 min
Trama:
Filme revela a vida sem glamour dos super-heróis de Hollywood
Curiosidades:
Alguém já disse que Hollywood é um lugar de obsessões disfarçadas pelas lentes das câmeras. Essa compulsão sempre ajudou muita gente a dar certo por ali - e quem se tornou um nome de sucesso ganhou uma estrela para a posteridade no concreto da mítica Calçada da Fama.
Mas o lugar também é um moedor de novos talentos, que chegam à cidade para trabalhar na indústria do cinema e terminam tendo que lidar com uma carreira fracassada.
São esses os personagens de Confissões de Super-Heróis, este ótimo documentário dirigido por Matthew Ogens. Quatro conhecidos com uma coisa em comum: são atores que ainda não deram certo, vivem de sonhos e passam o dia fantasiados de super-heróis. Eles fazem parte de um costume já clássico na Calçada da Fama: pessoas que encarnam personagens e tiram fotos com turistas em troca de uma gorjeta.
Sob uma trilha sonora e fotografia cuidadosas, Ogen nos apresenta a um Hulk negro e ex-sem teto, à Mulher-Maravilha nascida numa cidadezinha do Tennessee e a um sósia de George Clooney, que mantém a fantasia de Batman mesmo nas visitas ao seu terapeuta e frequentemente é preso por brigar com turistas.
Mas o personagem principal de Confissões é Christopher, que encarna o Super-Homem há mais de 10 anos no Hollywood Boulevard. Magricela e com um quê de Christopher Reeves (que encarnou o herói no cinema), ele é um dos mais famosos e queridos fantasiados da calçada - e, certamente, o mais doido.
Chris tem uma obsessão imensa pelo personagem que homenageia. Do tipo que tem uma casa entupida de memorabilia, passa horas arrumando seu pega-rapaz e age no dia-a-dia como o herói, com a moral certinha e (aparentemente) inabalável. Como um bom Super-Homem, ele faz a linha de "juiz" do calçadão estrelado, ajudando a manter o controle dos personagens - como quando convence o Motoqueiro Fantasma novato a não fumar em frente aos turistas e acalma uma Marilyn Monroe raivosa que não concorda com as regras do lugar.
Sai daí um prato cheio para o documentário. Ex-viciado em metafentamina, Chris é casado com uma PhD em psicologia e jura que é filho de Sandy Dennis (ganhadora do Oscar por Quem tem medo de Virginia Wolf?, em 1966). A família da atriz nega o parentesco, mas o kryptoniano não se abala. E protagoniza um dos melhores momentos do filme, ao viajar para uma convenção dedicada ao Super-Homem.
Os personagens não são fáceis - pelo contrário, às vezes se mostram um bocado pirados - e seria bem fácil fazer humor cruel com todos eles. Mas o diretor é justo e seu filme não se esforça em zombar dos seus retratados. O retrato é fiel, de pessoas que acham que ainda vão realizar seu sonho de fama e fortuna, e que estão seguindo o caminho mais difícil. No final das contas, é impossível não criar uma conexão com esses quatro losers da indústria cinematográfica.
Superman é certamente o mais obstinado dos quatro personagens retratados em “Confissões de super-heróis”, documentário exibido nesta quarta (22), às 22h10, na Mostra de Cinema de São Paulo – veja dias e horários alternativos abaixo. Há 11 anos no serviço, ele já transformou sua casa em um verdadeiro QG do Homem de Aço, com pôsteres, bonecos e souvenires do herói da DC Comics espalhados por todo canto do local. Franzino, porém idêntico do pescoço para cima ao ator Christopher Reeves, que interpretou o personagem no filme clássico da década de 1980, o Superman da Calçada da Fama se orgulha ao revelar sua identidade supostamente verdadeira: Christopher Dennis (além da coincidência no primeiro nome com o ídolo, o sobrenome é o mesmo da estrela de cinema Sandy Dennis, a quem o Superman da Calçada chama de mãe, embora nem mesmo alguns familiares da atriz o reconheçam).
Idêntico da cabeça para cima a Christopher Reeves, Superman é o mais obcecado pelo trabalho. Mais experiente e até com alguma fama conquistada através de reportagens sobre o trabalho dos atores de rua de Hollywood, Chris “Superman” Dennis funciona como uma espécie de líder e embaixador do local – é a ele que Marilyn Monroe recorre para reclamar de turistas japoneses que tiraram fotos com ela e não deram gorjetas, e é ele quem controla o temperamento explosivo do Batman, que antes de vestir a máscara do Homem-Morcego afirma ter deixado “um rastro de corpos” pelo Texas enquanto trabalhava como capanga para um mafioso italiano. Faixa preta em artes marciais, Maxwell Allen, o Batman, faz jornada dupla trabalhando como segurança nos perímetros dos estúdios de cinema e lamenta não ter conseguido papéis relevantes até hoje por ser “muito parecido com o George Clooney”. Sua mulher, aliás, concorda.
O núcleo de super-heróis que passam pelo divã do diretor Matthew Ogens inclui ainda a Mulher Maravilha e o Hulk. Rainha do baile e cheerleader na cidadezinha onde nasceu e cresceu, Maynardville, no Tennessee, a Mulher Maravilha Jennifer Wenger resolveu tentar a sorte em Hollywood logo após terminar o colegial. Com apenas algumas pontas em seriados e comerciais para a televisão, ela resolveu vestir o microshorts e a tiara da heroína da DC para garantir sua sobrevivência enquanto não emplaca um grande projeto.
Mulher Maravilha reclama da relação com o pai superexigente e com o marido, que só quer saber de trabalho. O mesmo vale para o jovem negro Joseph McQueen, que só topa acordar todas as manhãs e caminhar por seu bairro a pé debaixo da fantasia quente do Hulk – “me sinto um loser”, confessa enquanto passa diante de um casal de jovens amigas – porque acredita que o sucesso ainda vai bater à sua porta. Depois de viver como sem-teto em Los Angeles por quatro anos logo ao chegar de sua cidade na Carolina do Norte apenas com o dinheiro de um videogame Super Nintendo vendido, McQueen comemora como um Oscar a sua escolha para um papel coadjuvante em “Finishing the game: the search for a new Bruce Lee”, filme B com jeitão anos 70, que se propõe a encontrar um substituto para a lenda das artes marciais e concluir seu último e inacabado longa, “Game of death”.
Supervilões?
Além do drama pessoal e psicológico de cada um dos atores, “Confissões de super-heróis” registra ainda as dificuldades que eles enfrentam para trabalhar na Calçada da Fama. Altamente rigorosa, a polícia de Los Angeles coloca oficiais à paisana para conferir se não há excessos na abordagem aos turistas. Se houver, é cadeia, como o documentário mostra de maneira tragicômica em um episódio em que foram presos o Elmo, do “Vila Sésamo”, e o Sr. Incrível, da animação “Os Incríveis”. Max Allen, o Batman de pavio-curto, também já foi preso por discutir com passantes.
Para um ex-prefeito de Hollywood entrevistado pela equipe do documentário, aqueles homens fantasiados de super-heróis que fazem a alegria do álbum fotográfico de muita gente não passam de “mendigos”, que precisam ser retirados de lá.