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Uma análise que fiz sobre Batman e Coringa usando a abordagem dos Estudos Culturais para a faculdade de Comunicação Social que curso.
Introdução
O objeto de discussão deste trabalho é a relação de herói/ vilão entre Batman e Coringa, mais aprofundada pela obra “A Piada Mortal”.
No mundo dos quadrinhos encontramos os mais variados gêneros de histórias: humor, erotismo, infantil, entre outros. No âmbito deste trabalho as histórias que nos interessam são as de super-heróis ou, como são conhecidos nos Estados Unidos, os “comics books”, o motivo para tal escolha é simples, neste gênero de história encontramos abundante material para refletirmos sobre a relação bem e mal e outros aspectos a eles relacionados. Neste sentido, o que objetivamos aqui é analisar os aspectos psicológicos do herói e do vilão, tentando entender que tipo de estética predominante eles afirmam.
As histórias em quadrinhos já foram objeto de estudo nas mais variadas áreas de conhecimento. Um desses estudos foi encabeçado pelo psiquiatra alemão Fredric Wertham, o qual, no final da Segunda Guerra Mundial e inicio da Guerra Fria, aproveitando-se do clima pós-guerra que se instalou nos Estados Unidos, oportunamente fez talvez a mais dura crítica que os quadrinhos já sofreram em seu livro “Seduction of the inocents” (a Sedução dos Inocentes no Brasil), no qual alegava que as historias em quadrinhos levavam os jovens americanos ao homossexualismo (usando como elemento de argumentação a relação entre a dupla Batman e Robin) e diversas outras “anomalias no comportamento”. As denuncias de Wertham mobilizaram vários segmentos da sociedade americana como, por exemplo, associações de professores, mães e até mesmo grupos religiosos, todos unidos em prol de uma única causa – abolir as histórias em quadrinhos. As críticas aos “comics books” percorreram o globo, atingindo com maior ou menor impacto todos os paises nos quais os quadrinhos eram editados, diversos códigos foram criados para “depurar” o conteúdo dos quadrinhos inclusive em nosso país, no qual foi criado um “código de ética dos quadrinhos” elaborado por um grupo de editores das maiores editoras de quadrinhos no Brasil (VERGUEIRO & RAMA, 2004).
O desenvolvimento das ciências da comunicação e dos estudos culturais nas ultimas décadas do século XX fez com que as histórias em quadrinhos passassem a ter um novo status de aceitação por parte de educadores e intelectuais. Assim, sua atual condição é a de importante instrumento educacional e altamente difundido em publicações especializadas em educação, até mesmo nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) encontramos recomendações para a utilização das historias em quadrinhos em sala de aula. Ainda no campo da academia, podemos destacar várias pesquisas abordando os personagens das historias em quadrinhos e suas aventuras: história, arquitetura, religião, enfermagem, entre outras, apresentam um razoável número de publicações de teses de mestrado e doutorado utilizando as historias em quadrinhos como pano de fundo para debater os mais variados assuntos. Muitos autores destacam que nessas histórias há a presença de valores implícitos que vão muito além do valor de entretenimento. Diversas publicações que se tornaram clássicas no universo acadêmico expressão esse significado: “Para ler o Pato Donald” de Dorfman e Matellard ,”Super-homem e seus amigos do peito” de Dorfman e Manuel Jofre, “Apocalípticos e Integrados” de Umberto Eco, são exemplos de textos que vieram enriquecer o debate e ajudaram a despertar o interesse para análises mais atentas.
Morcego. Coringa. Símbolos. Na saga, Batman escolhe o morcego porque representa o medo, o demoníaco habitante das trevas que espreita o mal da humanidade. O Coringa se torna uma imagem que originalmente significa matar. Estranho como símbolos podem ser poderosos. “Le Mat”, o tolo, o insano sagrado que leva uma vida encantada. O enigma irracional dos maiores arcanos do tarô, o único a sobreviver no baralho moderno, o Coringa. Mas, ele não deriva do gargalhador, “Lê Mat” tem origens em matador e xeque-mate, palavra persa que desegna “matar”. Já o morcego é chamado pelos índios canadenses de “fantasma”, bruxas européias os fervem em suas poções para que elas possam voar, no Haiti, bebem o sangue do animal para obterem poder, os sicilianos os queimam ou os engancham em suas portas para manter ameaças longe. Na Irlanda o morcego é simplesmente a morte, já para os Samoanos, ele lidera os lidera na guerra. “Lê mat” é uma carta perigosa. Ela é o destino, o fim de tudo. Nos diz que a morte vem quando menos é esperada. Nos mitos dos índios da América do norte, o morcego é um galante herói e campeão da humanidade. Em sua forma de pássaro voador, ele simboliza as aspirações da alma humana.
Nos quadrinhos, o morcego e o coringa são os dois maiores estereótipos de um herói e seu maior vilão.
Este trabalho não tem caráter conclusivo, já que os quadrinhos não são donos de uma verdade absoluta, estando sempre em metamorfose. Sabemos que a cada década, ou até mesmo a cada ano, muitos criadores chegam às bancas com novas gerações de vilões e heróis, porém pode-se salientar que o escrito não pode ser apagado ou ignorado.
A Piada Mortal
A Piada Mortal (Escrita por Alan Moore e desenhada por Brian Bolland) ficou muito famosa no Brasil e nos Estados Unidos. Em primeiro lugar, graças ao competente e bem forte trabalho de distribuição da editora norte-americana DC Comics - só aqui no Brasil, a editora Abril Jovem publicou a obra três vezes, algo difícil de acontecer, já que estamos falando de gibis. Em segundo lugar, por ser uma história de grande importância na cronologia do Batman Publicada pela primeira vez em 1988, A Piada Mortal ganhou as principais premiações das HQs americanas: o Harvey Award (Melhor história, desenhista, colorista e graphic novel) e o Will Eisner Comic Industry Award (Melhor escritor, artista e graphic novel).
Se o roteiro de Moore é fabuloso, a arte de Bolland (que demorou quase três anos para finalizar a HQ) não deixa por menos. Boa parte da genialidade da obra está nos seus desenhos hiperdetalhistas, com traços finos e pleno domínio do uso de luz e sombras. Ele imprime aos personagens uma noção de expressão corporal e facial poucas vezes vistas nas HQs americanas. O trabalho tenta imprimir tantos conceitos realistas, que logo na capa encontramos uma referencia bem interessante, a câmera fotográfica do Coringa tem uma pequena palavrinha discreta; “Witz”, marca da tal máquina fotográfica que significa piada em alemão! Além disso, a lente é da marca Witzmacher, que significa fazedor de piadas
Já na capa nos deparamos com o Coringa sorrindo diabolicamente contra nós, segurando uma câmera fotográfica, já estranhamos um pouco. Bem, cadê o Batman? É, bem, o protagonista da história é o Coringa, e todos os outros personagens são secundários, incluindo o comissário Gordon, Bárbara e até o próprio Batman.
O Coringa foi criado por Jerry Robinson em 1940, para ser o arqui-inimigo do Cavaleiro das Trevas. Sua origem só foi contada onze anos depois, um bandido que caiu num tanque cheio de ácido, para a desaprovação de Robinson – ele preferia que sua aparência fosse sempre um mistério. Até chegar a Moore, o Coringa era apenas um personagem unidimensional, um homem mau, dizendo eventualmente algo divertido. Ele não passa de um mero vilão, inteligente e que atrai nossa atenção de forma meio perturbadora, mas no fundo é apenas mais um bandido que o Batman caça. Somente em A Piada Mortal, o Coringa foi tratado com um certo afeto.
Na história de Moore, o Coringa é o astro, um personagem com camadas, com uma história. E ele não tenta roubar um banco, se candidatar a prefeito, ou uma besteira dessas. O Coringa de Moore quer desforra, contra todos seus inimigos. Diante das ações do Coringa, os outros personagens (e nós, leitores) ficam sem condições de reagir. Bárbara (filha do comissário Gordon e Batgirl) é baleada na coluna e fica paraplégica. Gordon é seqüestrado. Batman não consegue fazer outra coisa a não ser observar os estragos.
Ao mesmo tempo, em flasbacks, vemos a origem do Coringa. E, surpresa, encontramos um homem profundamente assustado e, à primeira vista, incapaz de machucar uma mosca. Vi uma leitura (Dissertação do Morcego) que dizia que o Coringa representava um insano homossexual. De fato, é uma leitura possível. Mas, pessoalmente, não concordo muito com ela. O futuro Coringa é casado e prestes a ser pai, lembram?
A miséria é a principal inimiga desse homem, e sua luta diária contra ela vai minando sua resistência aos poucos. É interessante notar quando vemos o homem conversando com sua esposa na cozinha, vemos um varal improvisado. E ele reclamando que o aluguel está atrasado. Preste atenção que essas frustrações formam o gatilho que vão levar a toda violência futura.
Sua entrada no crime não é totalmente revelada por Moore, mas dá para deduzir que deve ter surgido meio por acaso. Para comparar com nossa realidade, basta ligar nos noticiários da TV à tarde que vemos um pobre pé de chinelo preso dizer para um repórter: “que estava passando necessidade, que não teve outra saída a não ser roubar...”. E assim, ingenuamente, esse homem acha que cometer um simples roubo com dois bandidos lhe dará uma oportunidade de se provar como marido e pai...
A morte da esposa do Coringa, Jeannie, num acidente estúpido, é mostrado meio bruscamente, como é a tradição essas cenas aparecerem nos quadrinhos dos super-heróis. Uma parte que termina com a já clássica queda do Coringa no tanque de ácido.
Em poucas histórias (até então) o Coringa foi tão articulado, dizendo algo que preste. Quando tira fotos com Bárbara nua e ferida diz: “Infelizmente não podemos levar inválidos. Mas algumas fotos suas vão fazer seu pai lembrar de você.” Ou quando tortura Gordon e cinicamente sai com essa: “Lembrar? Oh, eu não faria isso! Lembrar é perigoso...Eu vejo o passado como um lugar cheio de ansiedade. O “pretérito imperfeito”, como você chamaria. As memórias são traiçoeiras! Num momento, você está perdido num carnaval de prazeres, com o aroma da infância, os néons da puberdade...No outro, eles te levam a lugares onde a escuridão e o frio trazem à tona coisas que você gostaria de esquecer! As memórias podem ser vis, repulsivas, brutais...como crianças! Mas podemos viver sem elas? A razão se sustenta nelas. Não encarar as memórias é o mesmo que negar a razão. Mas e daí? Quem nos obriga a ser racionais? Não há cláusula de sanidade!” E finaliza: “Apesar da vida ser um mar de rosas, você caiu nos espinhos! Música, Sam!”
E no climax da história, quando enfrenta o Homem-Morcego: “Sabe, eu estou pouco ligando se você me levar de volta ao asilo, Gordon enlouqueceu mesmo... Demonstrei que não há diferença entre mim e outro qualquer. Só é preciso um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático. Essa é a distância entre o mundo e eu... apenas um dia ruim”.
Mas, e o Batman? Ele só tem importância mesmo no final, quando liberta Gordon e extrai alguma lição de moral no fim da história. No resto é mais uma personagem atordoada pelas ações do Coringa. Afinal, se ele não é o maior detetive do mundo, por que não consegue achar o vilão sozinho e precisa de uma pista, na verdade um sinistro convite? Olha mais uma vez Alan Moore mostrando sorrateiramente que indivíduos perfeitos não existem. Batman não consegue evitar que Bárbara seja baleada. Batman não consegue evitar que Gordon seja seqüestrado. Mas se olharmos desde o começo veremos uma realidade ainda mais aterradora: Batman não consegue evitar uma comunidade que vive na miséria de onde nasce o Coringa. Batman não consegue mudar um sistema penitenciário totalmente corrompido e falido, de onde o Coringa e tanto outros sempre escapam. Enfim, a mensagem de A piada mortal é que heróis são inúteis.
Para terminar, diz a lenda que o final de A piada, com o Batman e o Coringa gargalhando na chuva, não passa de uma cena forçada, porque o final original proposto por Moore foi censurado pela DC. Acredite se quiser
Estudos Culturais
Estudos Culturais são estudos sobre a diversidade dentro de cada cultura e sobre as diferentes culturas, sua multiplicidade e complexidade. São, também, estudos orientados pela hipótese de que entre as diferentes culturas existem relações de poder e dominação que devem ser questionadas.
“O que distingue os Estudos Culturais de disciplinas acadêmicas tradicionais é seu envolvimento explicitamente político. As análises feitas nos Estudos Culturais não pretendem nunca ser neutras ou imparciais. Na crítica que fazem das relações de poder numa situação cultural ou social determinada, os Estudos Culturais tomam claramente o partido dos grupos em desvantagem nessas relações. Os Estudos Culturais pretendem que suas análises funcionem como uma intervenção na vida política e social.” (Silva, 2002: 134).
Os Estudos Culturais foram criados pelos pesquisadores anglófonos Richard Hoggart, Raymond Williams, E. P. Thompson, mas ganharam consolidação basicamente a partir do trabalho do anglo-jamaicano Stuart Hall: diretor do Centro de Estudos Culturais Contemporâneos (CCCS) da Universidade de Birmingham entre 1969 e 1979. Na década de 70, a atenção central do CCCS foi a ação da mídia. Seus antecedentes foram o movimento no campo dos estudos literários e debate gerado pela Escola de Frankfurt, tendo como motivo gerador as alterações dos valores tradicionais da classe trabalhadora na Inglaterra do pós-guerra.
Os pressupostos fundamentais dos Estudos Culturais são a análise da ação da mídia, atentando sobre as estruturas sociais e o contexto histórico como fatores essenciais para a compreensão da ação desses meios. Ocorre o deslocamento do sentido de cultura da sua tradição elitista para as práticas cotidianas.
A cultura não é tanto um conjunto de obras, mas um conjunto de práticas. A cultura tem relação com produção e intercâmbio de sentidos, isto é, o dar e receber sentidos entre os membros de uma sociedade ou grupo. Assim, a cultura deixa de ser considerada algo passivo e incorpora um sujeito que pode criar e agir sobre as coisas. No campo da comunicação, o interesse nas tecnologias é despertado.
Por que é importante a ênfase no entendimento de práticas culturais? Um conceito de cultura associado à idéia de prática aponta para o sentido de ação, de agência humana, isto é, a cultura não significa simplesmente sabedoria recebida ou experiência passiva, mas um grande número de intervenções que podem tanto mudar a história ou transmitir o passado.
A cultura é uma região de disputas e de conflitos acerca do sentido; cultura diz respeito aos enfrentamentos entre modos de vida diferentes devido à existência de relações de poder. Como a comunicação é entendida dentro desse contexto? A comunicação é vista como um processo simbólico através do qual a realidade é produzida, reproduzida e transformada.
Adquire um sentido especial o processo de recepção: esta é tratada como um processo social complexo que envolve atividade contínua de apropriações, usos e reelaborações de conteúdos por parte de indíviduos, estruturados em grupos sociais particulares. Desenham-se enlaces entre TEXTO - CONTEXTO - RECEPTORES.
Para os Estudos Culturais não existe divisão entre cultura e condições de produção. Para pensarmos a cultura é preciso pensar como fizemos o texto, assim, chegamos ao pressuposto de como ver a cultura na sociedade.
Batman/Coringa – Uma analise de duas faces da mesma moeda
Se O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller é a obra definitiva do Homem-Morcego, cabe à Piada Mortal fazer a abordagem mais intimista dele.
Todo leitor de HQ que se preze sabe que o Coringa é um psicótico capaz das maiores atrocidades. Mas que aconteceria se essa força do mal fosse o resultado de trágicas casualidades? Tal possibilidade foi colocada pelo roteirista Alan Moore em 1988.
No final de A Piada Mortal, o Coringa é derrotado. Mas, antes de Batman levá-lo de volta para o Asilo Arkham, vilão e herói conversam. O diálogo é antológico. O Cavaleiro das Trevas se oferece para ajudá-lo a encontrar o caminho da regeneração. Do contrário, ambos estarão condenados a colidir novamente, até que algum deles morra.
O Coringa responde que é tarde demais para pensar nisso. Então conta a velha piada dos dois loucos que fogem do asilo. Um deles pula o muro, mas o outro tem medo. O louco que pulou liga a lanterna e diz para o companheiro descer pelo facho de luz. Então o louco que ficou responde: "E se você desligar a lanterna quando estiver no meio?". A piada é velha, velhíssima.
O Coringa ri enquanto Batman, taciturno, observa. Devagar, as feições enrijecidas do Homem-Morcego esboçam um sorriso. Depois ri, meio forçado. Finalmente gargalha com o Coringa. Como dois moleques. Um carro da policia chega. A sirene berra. Chove. Vilão e herói se abraçam. Brutal.
A trama, além de uma profunda análise psicológica do Coringa e do Batman, traz uma nova visão para a origem do mais importante inimigo do Cavaleiro das Trevas.
A única coisa que se sabia do Coringa é que ele tinha sido o bandido conhecido como Capuz Vermelho. Ele era um ser sem passado. Alan Moore mudou isso. Desde o lançamento desta revista, o Palhaço do Crime tem um passado, uma família e uma tragédia. E isso tudo, aliado a seu espírito covarde, culminou na criação de uma nova personalidade, uma fuga, uma máscara para encarar a realidade.
Essa história quebrou alguns paradigmas dos quadrinhos. Em geral, a relação herói-vilão é simples e maniqueísta. O mocinho perfeito enfrentando seu contraponto imperfeito. Nos roteiros clássicos, a função do bandido é personificar as dificuldades, a força opositora que apresenta resistência ativa e, por isso, valoriza e enobrece os esforços do protagonista para atingir seus ideais.
Nos roteiros pouco mais elaborados e menos ortodoxos, o maniqueísmo ainda é presente, mas atenuado. O herói já não é visto como um arquétipo da perfeição, mas como qualquer pessoa. Ele tem problemas e conflitos internos, seu diferencial é a perseverança e a coragem de enfrentar os problemas, mesmo consciente de suas imperfeições. O vilão, por sua vez, passa a representar um elemento menos importante, embora mais complexo.
No roteiro de A Piada Mortal, que ainda hoje pode ser considerado de vanguarda, Moore rompe com as regras e fórmulas clássicas. A história é surpreendentemente complexa, exigindo uma análise difusa dos personagens, do simbolismo, e das tramas que ora convergem, ora correm paralelas uma as outras.
Alan Moore influenciou as HQs ocidentais mais que qualquer outro escritor contemporâneo. Trabalhos como Monstro do Pântano, V de Vingança, Watchmen, Tom Strong, Do Inferno, A Liga Extraordinária e, claro, A Piada Mortal atingiram o status de obras-primas.
Nesta aventura, Moore explora profundamente o aspecto psicológico de dois dos maiores pilares dos quadrinhos de super-heróis, Batman e seu antagonista, o Coringa. Há três tramas (Batman, Coringa e Gordon) que vão se trançando. Entretanto, em dado momento, a história do comissário se individualiza, passando a ser um referencial de comparação com as demais.
A narrativa é soberba, as mudanças temporais são extraordinariamente bem realizadas, o fluxo oscila, utilizando tipos de linguagem diferenciados para tratar de presente e passado. Boa parte da história remete às lembranças do homem que se tornaria um dos mais perigosos bandidos da DC Comics. E o trabalho de analise psicológica é primoroso. Assim, Moore demonstra quem foi - e é - aquele homem e quais suas alegrias, frustrações e motivações.
A interação entre a arte e o texto é de uma qualidade e sutileza ímpar. As cores são usadas como referencial emotivo. Assim, as boas lembranças são mostradas com tons claros, e as passagens tristes num alaranjado, que cumpre bem seu papel, chegando a causar desconforto no leitor.
O plot do Batman começa no Asilo Arkham, mostrando um personagem calmo, centrado, apaziguador. Em outra direção, o do Coringa se inicia com o cruel ataque a Bárbara Gordon, revelando um homem brutal e insano, a imagem de um psicopata.
Vindo de direções opostas, aos poucos as duas histórias vão se misturando e algumas perguntas vão sendo expostas: quão são é um homem que se mascara para enfrentar a vida? Quantos manteriam sua sanidade após um grande trauma? E ambas servem tanto para o Batman quanto para o Coringa, mas são respondidas no storyline do comissário Gordon.
Bruce Wayne, Gordon e um jovem comediante passaram por revezes na vida. O que levou dois deles a seguir o caminho da máscara? O que fez o outro sofrer, resistir e continuar vivendo? Quem enfrentou melhor os conflitos internos?
Moore desconstrói a idéia de que boas histórias precisam ser baseadas em arquétipos mitológicos. A "realidade" é bem mais complexa. Batman não é apenas o modelo do herói, o Coringa não é somente o pícaro, a personalidade de Gordon é bem mais complexa que um mero guardião.
Próximo ao desfecho, o autor brinda o leitor com um instante de aparente lucidez do Coringa. Por um breve momento, Batman tem contato com o jovem e pouco talentoso comediante que viria a ser o vilão. E se no início as tramas dos dois caminhavam em direções opostas, no final, quando o Palhaço do Crime exibe uma ponta de sanidade, a loucura de Batman aflora.
Alan Moore faz uma genial analogia entre uma velha piada de loucos e o medo que o Coringa tem de tentar viver novamente e, mais uma vez, a vida o afrontar com a decepção. Na percepção do autor, depois da tragédia que levou sua sanidade, o personagem não suportaria uma segunda.
A intenção do Coringa era justificar suas ações, ser condescendente com seus próprios erros e demonstrar ao Batman que qualquer um pode se partir se tiver "um dia ruim". Foi essa sua motivação ao mutilar Bárbara e torturar o Comissário Gordon.
Mas apesar do "dia ruim", Gordon, diferente de Batman e do próprio Coringa, continua firme, lutando, sentindo as dores de seus conflitos internos e mantendo a consciência de que não pode tomar o destino em suas mãos.
Chegamos a conclusão que a partir dos anos 80, os quadrinhos passaram por uma auto-revolução não divulgada pelas outras mídias, ficando apenas entendida exclusivamente pelo publico já cativo das produções (segundo pesquisas, o publico de gibis começa a lê-los na infância, é muito raro um adulto adquirir esse hábito se nunca o teve antes). Saindo de um estado de infantilização (obrigado a existir pelo “comic code” dos anos 40, criado a partir das acusações do livro “A Sedução do Inocente”, já citado).
Hoje, assim como no cinema norte-americano, temos dois produtos de quadrinhos, um mais numeroso que visa o lucro imediato, feito mais as pressas, com menos cuidado, onde o mais importante é o conflito herói/vilão (apesar de também haver uma influencia dos quadrinistas vanguardistas dos anos 80, tornando os conflitos pessoais dos personagens como um tema dentro do assunto).
E um outro quadrinho mais estiloso, bem acabado (como O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, A Piada Mortal de Alan Moore e Asilo Arkham de Grant Morrison), normalmente chamado de “quadrinhos adultos” do qual leva o leitor a pensar, a se refletir nos personagens de alguma forma e talvez, encontrar respostas para suas próprias questões pessoais.
A idéia é que os quadrinhos chegam à idade adulta junto de seus fiéis leitores, iniciados na infância. O Coringa que surge nessa nova abordagem é tipicamente um homem acuado, fracassado dentro de seus maiores temores, um símbolo de uma sociedade competitiva que é formada em sua maioria por uma minoria, e que se recusa a se ver como tal.
Uma sociedade hipócrita que se recusa a enxergar sua homossexualidade, sua fraqueza, sua pobreza e miséria, que prefere enfrentar os danos a enfrentar a causa de suas feridas.
O Asilo Arkham, no qual o Coringa e seus pares são detidos é um cuspe na cara dessa sociedade que não sabe lida com aqueles considerados pairas.
Gotham City é como qualquer cidade do mundo contemporâneo. Um lugar que vive no caos. Uma sociedade perdida na corrupção e no falso moralismo. Um lugar onde luxuria e lixo se encontram, luz e trevas num eterno combate, e de onde suas feridas pipocam seres como o Coringa, que poderia ser um pedófilo ou um traficante que esquarteja seus rivais numa favela carioca.
Onde a ficção pára, e a realidade começa? E vice-versa?
Batman é, por sua vez, apenas um fruto da ferida que pulsa de nossa sociedade. Um ser traumatizado que de alguma forma representa a nossa esperança. Afinal, seria ótimo ter um guardião mais forte e preparado olhando por nós na escuridão da noite, que traz os medos mais primitivos do homem comum. Mostrando que de alguma forma ainda existe luz nas trevas.
Quando vemos esse quadrinho mais autoral e menos comercial, vemos em suas páginas mais um romance gráfico do que um simples passatempo de sábado à tarde.
Batman e Coringa levam vantagem sobre seus pares do multiverso dos quadrinhos, por não serem propriamente “supers” e sim humanos comuns, com dramas mais baseados na psicologia, e não na ciência e no fantástico, um fato que os permite transitar satisfatoriamente nos dois estilos que as hqs apresentam.
Basta a interpretação do artística ou comercial dada aos personagens em determinada edição.
Seja como for, se Batman e Coringa forem transportados apenas para o lucro ou para uma reflexão interna do leitor, os dois já fazem parte do imaginário popular do século XX e continuam com uma energia aparentemente inesgotável de criar afeto para com seus seguidores fieis, criando uma espécie de laço afetivo do qual o leitor se identifica, seja por atos, conseqüências ou origens, o que os tornam aptos para ingressarem nos novos tempos, ganhando uma proporção quase mitológica dos parâmetros de uma sociedade contemporânea.
Linc Nery
Referencias Bibliográficas
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MORRISON Grant. Asilo Arkham. E.U.A. DC Comics. 1990. pg 01-80
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EUGENIO BAPTISTA Carlos. Dissertação do Morcego. Brasil. Patati. 1993. pg. 05-80
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GNU Free Documentation License. Estudos Culturais. País Desconhecido. 10 fev 2008. Wikipédia. Disponível em:< http://pt.wikipedia.org/wiki/Estudos_Culturais> Acesso em 27 abr 2008
WALTER Praxedes. Estudos culturais e ação educativa. São Paulo. agos 2003. Espaço Acadêmico. Disponível em: